Soube por estes «novos» meios com que nos correspondemos, por um SMS, que Micheline Galabert-Augé faleceu. Foi uma das fundadoras da Associação das Mulheres da Europa Meridional (ou do Sul). Primeiro recebi a notícia com surpresa e depois veio um sentimento de desaparecimento. É com pena, muita pena que tomei conhecimento do falecimento de uma incansável militante feminista.
Conhecemo-nos em 1996, em Dublin. Micheline estava a organizar a Associação e não havia mulher de um país do Sul da Europa que lhe escapasse em qualquer fórum europeu. Foi assim que a conheci. Participámos num seminário organizado pela presidência irlandesa da União Europeia, não havia euros e os telemóveis ainda não estavam tão massificados. Recordo um passeio nocturno que fizemos e no qual fui inquirida sobre Portugal, sobre associações, sobre a acção militante feminista no sul.
Esta francesa de Andorra era irrequieta, curiosa e cheia de histórias. Durante alguns anos partilhámos correspondência, alguns telefonemas e encontros organizados pela AFEM (Association des Femmes de l´Europe Meridionale). Recebemo-la na Amadora e passou a ser uma diligente leitora do «Notícias da Amadora». Confessou-nos que o lia com o neto que estava a aprender português, lá em França onde convivia com meninos portugueses. Quando o «Notícias da Amadora» deixou de lhe chegar a casa, a Paris, junto ao Jardin du Luxembourg, onde morava, telefonou. Telefonou para saber notícias do «Notícias». Lá longe sentiu-lhe a falta, a mesma que muitas sentirão do olhar vivo, das perguntas afoitas e da curiosidade de saber.
Foi um gosto os encontros com Micheline.
Albertina Jordão
Uma parisiense do Sul
Conheci Micheline Galabert numa reunião internacional, salvo erro em Bruxelas, no âmbito de projectos para a igualdade entre homens e mulheres em que o Notícias da Amadora participou.
Era uma mulher culta, militante da sua causa feminista e frenética nas acções em que se envolvia. Impaciente, por vezes, mas sem que o frenesim transparecesse de uma calma que parecia acompanhá-la desde as suas origens, na aldeia de Siguer (Ariège), nos Médios Pirinéus. Zona de montanha desertificada, onde confluíam as culturas francesa, espanhola e andorrana.
A aldeia, situada a mais de 700 metros de altitude, foi local de passagem de contrabandistas, mas também o percurso utilizado para o comércio com os vizinhos e pelos passadores de refugiados durante a guerra. Toulouse é a capital da região dos Médios Pirinéus e foi destino de muitos republicanos espanhóis que fugiram à repressão franquista durante a Guerra Civil de Espanha.
Micheline Galabert era uma mulher impregnada pelos valores de um internacionalismo que aproxima os povos. E nada nela indiciava o chauvinismo que marca a conduta de muitos dos seus conterrâneos. Na sua singularidade era uma cidadã do mundo.
Interessada, preocupada com os outros e sempre com um enorme desejo de saber. Era uma mulher marcante na AFEM (Associação das Mulheres da Europa Meridional).
Em Paris, onde vivia no coração do Quartier Latin, era uma guia imprescindível e em Portugal era uma visitante curiosa. O seu olhar era ávido quer para a realidade que representou a Expo 98 quer para a paisagem natural da Serra de Sintra. E também não negava os sabores da mesa, que elogiou em Portugal, quer fosse o arroz de peixe ou o cabrito de Nafarros.
O seu desaparecimento deixa um vazio e uma saudade.
Orlando César
Noticias de Amadora. Edição 100 - 2007-12-26